A arte de montar sociedades: confiança antes de capital

18 de março de 2026, por João Bosco da Silva | Sócio e Consultor Sênior

O que ponderar antes de trazer um sócio

Nesta sequência de artigos, quero seguir refletindo sobre a árdua missão de escolher um sócio. Esse é um dos temas mais recorrentes nas reuniões de conselho de sócios das quais participo em empresas familiares.

Uma discussão objetiva, que vá direto aos pontos mais críticos, sempre facilita a evolução desse processo. Na minha visão, a primeira pergunta que precisa ser feita é:

“Por que preciso de um sócio? Qual é a razão para buscarmos um sócio?”

Vale a pena analisar tudo o que essa pergunta envolve e as respectivas ponderações.

A busca por um sócio tem como objetivo o aporte de capital? Se sim, qual será a participação que ele terá? O que será feito com o dinheiro aportado? Expandir a empresa, pagar dívidas, investir em novos produtos?

É justamente o destino da aplicação do capital que vai atrair um investidor. Dificilmente alguém se dispõe a investir em uma empresa cujo objetivo seja apenas dar liquidez aos acionistas atuais, sem planejar crescimento ou aumento da competitividade. Um sócio-investidor tende a aportar capital quando enxerga perspectivas de valorização e quando estão bem definidas as condições de uma eventual saída, como, por exemplo, uma abertura de capital.

Um exemplo típico deste tipo de sócio são os fundos de private equity, que entram com capital acreditando no crescimento e na valorização da empresa para, depois de alguns anos, realizar a saída. O foco dessa entrada estará no crescimento e na rentabilidade de curto prazo, o que pode gerar tensões com a família fundadora, que muitas vezes tem um perfil mais conservador e pensa a longo prazo.

Por outro lado, existe o sócio que traz habilidades complementares. Ele pode agregar conhecimento, contatos, tecnologia e acesso a novos mercados ou produtos. Este perfil costuma estar mais alinhado com a estratégia de médio e longo prazos da empresa.

Experiência e reputação

A pesquisa prévia em relação a histórico profissional, referências de mercado e envolvimento do potencial sócio em outros negócios é indispensável.

Na prática, o que todos desejam saber é o que muda com a entrada de um sócio na empresa.

É importante que os acionistas majoritários saibam que não poderão mais tomar todas as decisões sozinhos. O novo sócio, ainda que seja minoritário, terá poder de vetar algumas decisões. Isso traz a necessidade de construção de um conjunto de regras de governança: transparência na apresentação de resultados, auditorias e um acordo de sócios bem elaborado, que definirá, entre outros pontos, as regras relativas à distribuição de lucros.

As conversas preliminares com o potencial sócio devem ser francas, mostrando com transparência a realidade da empresa, com seus desafios e oportunidades.

Um bom acordo societário deve incluir cláusulas como vesting (entrada gradual na sociedade), non compete (critérios de não concorrência) e regras de saída ou exclusão.

Manutenção dos princípios e valores Ao longo das gerações, a família empresária desenvolve e consolida seus princípios e valores, que devem estar alinhados aos do futuro sócio.

A incompatibilidade nesse aspecto pode impedir a conclusão de fusões ou joint ventures.

Uma prática que temos é a chamada “estratégia do acionista”, uma conversa sobre o que desejam construir em conjunto e aonde querem chegar. Responder a essas perguntas ajuda a alinhar os propósitos e a evitar futuros desentendimentos. Esse diálogo é consolidado em um mandato, que deixa claros os principais objetivos a serem buscados no médio prazo, com indicadores claros para acompanhamento dos sócios.

Se você tem interesse em conhecer mais sobre este tema, siga acompanhando meus artigos. E se quiser aprofundar este tema, entre em contato comigo ou com a equipe da Cambridge Family Enterprise Group (CFEG).

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